
(foto retirada da net)
Eu estou atráz de ti,
Quando ao acordar acendes o cigarro para matar a ansia do tempo, nas manhãs onde procuras despertar os sentidos.
O simples acto de por os pés no chão e caminhar até a janela, onde com o teu olhar embaciado pelo anos, eu estou atraz de ti e vejo, alcanso pra lá da tua janela onde contemplas a cidade.
É normal ficares alguns momentos por ali, como é normal relembrar o outrora, onde a tua sensibilidade te acompanha sem ter de ficar escondida atraz do escudo que vestes todos os dias, após deixares a tua janela com vista para a tua cidade.
Eu estou atráz de ti,
Quando te olhas no espelho e refletes nele os receios, os medos, as tuas crises patéticas e desapropriadas, como te dizem os que te são mais queridos, porque a idade no fundo espelhasse na imagem e não no espirito, e o teu nunca deixou a juventude.
O rosto vincado pelo vinagre dos anos deixa marcas de acidez e pelos inumeros gritos de ajuda, porque quem te rodeia não percebe que gritas constantemente, que buscas constantemente numa luta diaria e gasta onde imploras ajuda, uma ajuda que nunca chega, nunca chegou porque não te entendem, porque é sempre mais facil condenar ou criticar, porque não vives segundo os padrões de vida deles, porque foges de todas as regras e normas de uma sociedade fechada propria de uma cidade pequena do interior...
Eu estou atráz de ti,
Quando aquele leão se ergue e ruge dentro, fundo em ti e te pede pra correr, desaparecer, nada importa apenas e somente correr...
Aquele leão que trouxestes escondido na tua bagagem quando deixastes a Guerra Colonial, na altura era tão pequeno que ninguém se apercebeu dele, não estranho, porque ainda hoje poucas pessoas dão por ele e as que dão nem sabem ao certo que especie de felino é...
È um macho potente forte a imponente, como são todos os leões.
Caminhas sem destino, pelas ruas, diambulas de cigarro na mão, olhando para o nada na busca do todo, como um leão perdido na savana, na busca pela infancia perdida, da juventude no encontro com a falta de amor que sempre sentistes ao longo da tua vida e que sempre afogastes nos inumeros casos, nas muitas mulheres que conquistaste, para unicamente enganares o enorme buraco negro que habita ainda hoje na tua alma...
Eu estou atraz de ti,
Sempre quando despes á noite o mesmo escudo que te escondeu ao longo do dia, quando voltas a ser tu e te apercebes do abismo que é a tua vida, nas voltas e reviravoltas que dás pela casa, no sofá, na cozinha, exausto acabas na cama, outras perdes os sentidos nem sabes ao certo onde e por aí ficas, a navegar no abismo que a tua vida se transformou, uma numerosa encruzilhada de becos, de portas que se fecharam, outras que fechaste e outras simplesmente porque fugiste ou preferiste ingorar ...
É aí que eu continuo atráz de ti, vejo a dor profunda de um homem que tem tudo mas que nunca se sentiu amado verdadeiramente e nem aceite, milhares de gritos, quanta rebeldia e nunca ninguem te ouviu ...
* In " Crónicas & Pensamentos do Velho Passado "
Luisa Raposo